Daily Archives: 01/02/2014

Sheherazade vs. Heródoto: a diferença entre jornalismo e discurso panfletário

O Porto de Mariel, construído em Cuba em parceria com o Brasil, gerou polêmica nos últimos dias. O BNDES investiu US$ 802 milhões no porto. Mais US$ 290 milhões serão destinados para a zona especial de desenvolvimento de Mariel.

A comentarista Rachel Sheherazade, apresentadora e comentarista do Jornal do SBT, fez duras críticas aos investimentos do governo. Jornalista brilhante, especialista em todos os assuntos, fez um comentário duro: “Parece que está sobrando dinheiro no Brasil, porque não tem limite a generosidade do governo com os estrangeiros”.

No final do comentário, a especialista em comércio internacional pergunta: “Por que financiar um porto em Cuba quando os nossos portos estão sucateados e abandonados?”

Heródoto Barbeiro, apresentador do Jornal da Record News, mais humilde, abriu mão de fazer comentários conclusivos e convidou para o programa um diretor da Fiesp, Thomaz Zanotto, para saber a opinião dos industriais.

Apesar de não serem tão sábios como a comentarista do SBT, os industriais têm interesses econômicos concretos e podem tecer avaliações sobre o assunto… O diretor da Fiesp destacou que o porto foi construído por empresas brasileiras, que forneceram também 80% dos materiais e equipamentos envolvidos na obra.

“Existe um interesse estratégico. O Brasil é um país sul-americano e tem bastante inserção na região. A inserção econômica do Brasil no Caribe ainda é pequena e pode melhorar muito. E o porto é uma oportunidade para isso”, disse.

A sábia apresentadora do SBT, com seu discurso ideológico, precisa ter cuidado para não passar a imagem de que é um boneco de ventríloquo dos blogueiros “fofos” (assim se referiu a Reinaldo Azevedo) da Veja…

Heródoto Barbeiro, por sua vez, fez jornalismo e entrevistou um diretor da Fiesp, que apresentou informações relevantes sobre as vantagens para as empresas do Brasil investirem no porto.

A sonolenta palestra de Joaquim Barbosa em Londres

Discurso de duas horas do presidente do Supremo fez reitor da Universidade de Londres cair no sono. Passagem de Joaquim Barbosa foi financiada pelo STF; ele recebeu R$ 14 mil em diárias para 10 dias de passeio pela Europa

joaquim barbosa palestra londres cochilo
O reitor Rick Trainor (esq.) em sua soneca

Joaquim Barbosa, conhecido por seus longos e acalorados debates na Presidência do Supremo Tribunal, passou por um constrangimento em Londres. Em palestra no King’s College, o reitor da Universidade, Rick Trainor, caiu no cochilo durante o discurso de duas horas de Barbosa sobre o funcionamento da Corte brasileira.

A passagem de Barbosa pelo evento foi financiada pelo STF. Ele recebeu R$ 14 mil em diárias para 10 dias de passeio pela Europa, nos quais teve apenas dois compromissos oficiais, em Paris e Londres.

A repórter Patrícia Dantas cobriu a palestra de Joaquim Barbosa em Londres para o portal DCM. Confira abaixo o seu relato:

Patrícia Dantas

O presidente do STF fechou sua temporada de três dias em Londres com uma palestra-aula no King’s College. Barbosa não deu entrevistas à imprensa antes ou depois e adotou um tom mais cauteloso do que seu padrão.

Apesar do frio de 5 graus e da chuva, o King’s College teve de disponibilizar uma sala extra com transmissão por streaming no Safra Lecture Theater. O salão principal teve seus 253 lugares tomados (o evento foi aberto e gratuito). Algumas pessoas ficaram em pé. Barbosa proibiu qualquer tipo de questionamento relacionado aos casos que ainda estão em andamento no Supremo. O diretor do King’s Brazil Institute, Anthony Pereira, deixou isso claro ao apresentar o palestrante. Segundo os organizadores, ele não recebeu cachê.

JB abriu a noite explicando como é escolhido o presidente do STF. ”O chefe da Suprema Corte não é eleito pelo presidente da República, mas sim pelos seus pares desde 1890″, disse. A conversa foi toda num inglês correto, com alguns termos jurídicos em português. “É importante para evitar a personalização e centralização do poder em apenas em um juiz. Fico muito feliz pelo Brasil ter adotado esse sistema desde o início”.

O tom, especialmente no início, foi monótono, com longas pausas reflexivas. O reitor, Rick Trainor, não aguentou e cochilou. No final, houve uma sessão de 40 minutos reservada às perguntas do auditório. Eu pude perguntar, se ele pretendia se candidatar a presidente.

Não respondeu de imediato. Preferiu passar a outras questões formuladas pelo público. Voltaria depois ao assunto da presidência. “A plateia me perguntou se eu sou candidato e eu ainda não respondi”, disse. “E, afinal, quer?”, ouviu-se no auditório repleto de brasileiros.

“Quero!”, afirmou ele, em tom irônico. Houve uma certa surpresa. Em seguida, esclareceu que estava fazendo uma piada. “Muitas pessoas se aproximam de mim nas ruas ou lugares públicos dizendo que eu deveria ser candidato. Nunca fui um político ou afiliado a qualquer partido político. Até mesmo na época da faculdade, também nunca participei de nenhuma militância política. Então, a resposta é não”.

Sobre racismo, ele disse o seguinte: “A maioria das pessoas que sofrem com a pobre educação no Brasil são negras. Negros moram em favelas, têm os trabalhos que pagam menos. Todos os indicadores apontam que esse é um dos problemas-chave na política brasileira. Brasileiros brancos não querem discutir isso. A TV no Brasil parece a TV da Dinamarca. Precisamos lidar com o assunto logo”.

joaquim barbosa palestra londres
Joaquim Barbosa, depois da palestra em Londres (Foto: Patrícia Dantas, BR Press)

Sobre uma visita recente que teria feito ao presídio de Pedrinhas, no Maranhão: “Políticos não se importam com esses assuntos porque isso não traz nenhum retorno, dividendos ou votos. Esta é a razão pela qual as prisões estão nesta situação. São como o inferno. Os governos alegam que não têm equipe suficiente para construir os presídios”.

Alguém quis saber se, sendo um “intelectual com ideias bastante progressistas”, ele não se incomodava em ser transformado em “herói” pela maioria dos grupos conservadores no Brasil. Barbosa: “Não me importo com quem aprecia meu trabalho, conservador ou liberal. Eu faço o que acho que é certo. Sou uma pessoa realmente cautelosa. Minha orientação é fazer o que é preciso ser feito. Se liberais gostam do que faço, tudo bem, mas eu realmente não me importo com isso”.

Encerrada a apresentação, Barbosa posou para fotos com a galera. Ficou calado e fez cara de exclamação quando um jornalista indagou se assinaria o mandado de prisão do deputado federal João Paulo Cunha quando voltasse das férias (aliás, não havia nenhum profissional da mídia internacional).

O gelo só foi quebrado quando alguém perguntou se ele iria tomar uma “pint”, a tradicional cerveja inglesa servida nos pubs. “Aí, sim”, disse Joaquim Barbosa, escoltado por seguranças e por seu assessor pessoal em direção à saída.

com Brasil 247 e DCM

Doação a mensaleiros é considerada “manobra legal” pelo STF

dirceu-genoino-delubio-mensalao-pt-corrupcao

A “vaquinha eletrônica” organizada pelos condenados do mensalão para quitar as multas impostas pelo Supremo Tribunal Federal foi considerada uma “manobra legal” por dois ministros da Corte e integrantes da Procuradoria-Geral da República, Conselho de Controle de Atividades Financeira (Coaf) e Banco Central.

Segundo as autoridades, as campanhas de arrecadação pela internet em favor do ex-deputado federal José Genoino (PT) e do ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares, apesar de “driblarem” a punição que deveria recair sobre os réus, não podem ser coibidas nem o sigilo dos doadores quebrado oficialmente sem que haja indícios de lavagem de dinheiro ou depósito atípico.

A fim de pagar as multas fixadas pelo STF nas condenações, foram realizadas campanhas na internet. Genoino arrecadou mais de R$ 700 mil e Delúbio, R$ 1 milhão. Segundo especialistas, apesar de causarem um certo choque, iniciativas como essas não são proibidas pela lei.