Alvo do ‘Fedeapá’, ministro depende de cálculos políticos para ficar

Fernando Bezerra, da Integração Nacional, precisa que cálculos políticos de Dilma Rousseff, em Brasília, e Eduardo Campos, em Pernambuco, mostrem que é melhor resistir do que sacrificar ministro, arrastado pelo ‘Festival de Denúncias que Assola o País’. Presidenta ainda deposita ‘confiança’ no auxiliar, acusado de bairrismo e paternalismo orçamentários, nepotismo e improbidade. Onda de denúncias tem fragilidades, mas ganhou dinâmica própria.

BRASÍLIA – Primeiro alvo do Festival de Denúncias que Assola o País, Fedeapá, em 2012, o ministro Fernando Bezerra (Integração Nacional) tem hoje sua sobrevivência condicionada a uma decisão política de três pessoas. A presidenta Dilma Rousseff, que afinal é dona do cargo. O próprio Bezerra, único a conhecer seus limites individuais. E o governador Eduardo Campos (Pernambuco), que comanda o partido de Bezerra (PSB) e é o padrinho da indicação.

Ainda que ouça conselheiros, só a trinca é capaz de dizer até que ponto vale à pena resistir a uma onda acusatória que já adquiriu dinâmica própria e só será contida com demissão ou enfrentamento. E, pela opinião mais importante, por enquanto, o ministro vai ficando.

Bezerra reuniu-se com Dilma nesta segunda-feira (9), para discutir com ela e vários ministros a reação do governo a estragos que a chuva causou no país, tendo sido atingido por quatro petardos em sete dias. Depois do encontro, houve uma entrevista dos ministros para contar o resultado, e Bezerra teve a chance – pois foi questionado pelos jornalistas – de dar um recado sobre os planos presidenciais. “Se eu não contasse com o apoio e confiança da presidenta Dilma, não estaria aqui nesta solenidade”, afirmou o ministro, dizendo ter tido uma longa e boa conversa para se explicar.

Quando se sentou diante de Dilma pela primeira vez desde que entrou na mira do Fedeapá, Bezerra tinha quatro notícias a esclarecer. Deu preferência à terra natal, Pernambuco, ao enviar para lá 90% da verba para obras antienchentes em 2011. Privilegiou o filho, deputado Fernando Coelho Filho (PSB-PE), ao liberar 100% do dinheiro que o parlamentar colocou no orçamento do ministério. Ignorou nepotismo – um irmão dirige empresa subordinada à pasta. E é réu na Justiça por ter pago duas vezes, como prefeito de Petrolina (PE), pela compra de um mesmo terreno destinado à mesma finalidade.

As explicações dadas pelo ministro à presidenta já eram em parte conhecidas da imprensa, por meio de notas oficiais do ministério e de uma entrevista coletiva dele mesmo, dia 4. Só a última, motivada por uma nova reportagem nesta segunda-feira (9), foi repassada primeiro à presidenta, e depois aos jornalistas. E o que diz Bezerra?

Sobre bairrismo orçamentário, informação tornada pública dia 3 por ONG pertencente a um deputado federal que é adversário do governo: ok, de R$ 29 milhões de um programa específico contra enchentes, 90% foram para Pernambuco. Mas de R$ 484 milhões em pagamentos feitos pelo ministério no ano passado, só 13% seguiram para lá. Bairrismo?

Sobre paternalismo orçamentário, informação trazida por um jornal no sábado (7): Fernando Coelho Filho teve 100% dos recursos de suas emendas liberados pelo ministério da Integração, mas outros 53 parlamentares também tiveram. Paternalismo?

Sobre este caso, o ministro não disse, mas poderia levantar ainda duas questões. O orçamento de 2011 foi aprovado pelo Congresso no fim de 2010, quando Bezerra não era ministro da Integração, embora já tivesse o nome cotado para o primeiro escalão de Dilma.

Pode-se discutir também se o certo seria Bezerra não liberar nada dos R$ 9 milhões de emendas do filho, porque não basta a mulher de Cesar ser honesta, é preciso parecer também.

Sobre o caso do nepotismo na Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), que desde janeiro de 2011 é comandada em caráter interino pelo irmão, Clementino de Souza Coelho: Bezerra diz que é uma contingência.

O presidente da empresa demitira-se, e pelo estatuto da Codevasf e por recomendação da Controladoria Geral da União (CGU), a interinidade deveria ser exercida pelo diretor mais antigo. É o caso de Clementino, na Codesvasf desde 2003 e interino até agora. Mas já com os dias contados. Tardiamente, aliás. Por que ninguém dentro do governo percebeu essa situação antes?

Aliás, Bezerra também poderia perguntar, por que seus vigias e fiscais igualmente “ignoraram” a situação durante um ano? Por que só agora a circunstância foi levantada? Talvez porque seja típico da natureza dos momentos de Fedeapá.

Essa talvez seja também a explicação para a última das notícias contra Bezerra, publicada justamente nesta segunda (9) por outro jornal. A história tem tanto tempo de vida quanto Clementino de Codevasf. Em 2003, o Ministério Público entrou com uma ação contra Bezerra por improbidade administrativa, por ter pago duas vezes pelo mesmo terreno.

Em 2001, o então prefeito de Petrolina tinha comprado uma área para construir nela um aterro sanitário. Pagara algo entre R$ 110 mil e R$ 115 mil. Tempos depois, a prefeitura percebera que já havia adquirido o mesmo imóvel cinco anos antes. Para se defender, Bezerra diz que quem o sucedera em 1997, não havia feito o registro do imóvel no cadastro da prefeitura.

Ainda que seja verdade, também cabe aqui uma pergunta. Cinco anos é tanto tempo assim para que ninguém na prefeitura, ainda que tenha havido mudança de administração, se lembrasse de que aquele terreno já havia sido comprado? Haveria muitas opções de aterro em Petrolina, a ponto de confundir os gestores?

Paroquial e nacional

De qualquer forma, para o ministro, o que estaria claro é que o Fedeapá contra ele pode até ter começado junto com as chuvas, mas hoje interessa mesmo é a seus adversários e do chefe, Eduardo Campos, em Pernambuco.

“O acirramento político em Petrolina pode ser explicado pela aproximação da disputa política municipal. Assim, é natural que, em meio da proeminência de alguns familiares, a cidade possua grupos políticos de oposição, que divulgam qualquer fato como se verdadeiro fosse e que se utilizam de qualquer órgão de controle para apresentar denúncias sem fundamento, mas que dão noticiário e terminam por ser objeto de investigação.”

Petrolina é o sexto maior colégio eleitoral de Pernambuco e, embora Campos tenha se reeleito em 2010 com vitória em todos os 185 municípios, é uma das poucas prefeituras comandadas por um adversário. O prefeito atual é Julio Lossio, do PMDB, partido cuja estrela em Pernambuco é o senador Jarbas Vasconcelos. Que é adversário de Dilma e perdeu em 2010 para Campos com a maior diferença daquela eleição: 82% a 14%.

A família Bezerra é a aposta de Eduardo Campos para tomar Petrolina do inimigo na eleição de outubro. Ao menos parte da família porque, como sugere o ministro na nota, a família é grande. Um tio dele, Osvaldo de Souza Coelho, é do DEM, também de oposição a Campos e Dilma, e não se dá com o ministro.

E se a política paroquial em Petrolina é lenha na fogueira do ministro da Integração, a política nacional também é. Em meio ao Fedeapá contra Bezerra, os partidos adversários do governo agem como qualquer oposição faz em qualquer país do mundo: tentam tirar proveito. Os partidos contrários a Dilma querem que o ministro vá ao Congresso se explicar e planejam entrar com uma ação no Ministério Público. Bezerra articula para ir ao Congresso na quarta (11).

De sua parte, o PT, que é aliado histórico do PSB, transmitiu sinais contraditórios. O secretário de Comunicação, André Vargas, endossou a primeira denúncia, sustentada com base numa informação de uma ONG jornalística de um deputado de oposição ao governo. Depois, o presidente do partido, Rui Falcão, emitiu uma nota dizendo que as relações dos petistas com o PSB são as melhores possíveis.

Posted on 10/01/2012, in Brasil, Economia, Política. Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

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